
Quando eu me for, talvez me conhecerão os que aqui ficarem. Meus diários serão expostos num varal qualquer. Não serão roupas limpas penduradas num arame, terão algumas manchas, eu sei. E lá ficará até alguém se dar conta do mal cheiro delas. Ficará lá até que alguém perceba que eu me fui. Algumas pessoas quererão conhecer mais delas. Sentirão o cheiro de longe. No final, alguns se agradarão das pesquisas, mas a medida que se aprofundarem nelas, se decepcionarão, de fato. Mas não sejamos pessimistas. Sei que aqueles que sentiram algum carinho que seja por mim, cuidarão de preservá-las, roupas velhas e sujas, sei que são, mas será o que restará de mim. Essas roupas que por muito me esconderam, sim, esconderam minha nudez. Roupas de todo tipo, das casuais as roupas finas, cada um revelava um momento meu. Vezes eu mostrava a nudez das minhas pernas, vezes eu escondia a nudez do meu ombro. Aquelas roupas ora penduradas, vão revelar a morte, mas também hão de revelar lembranças, de uma vida.
Quer saber, um dia se esquecerão delas(não do varal, que continuará lá, a espera de roupas novas). Roupas velhas não deixarão de ser. Um dia alguém se incomodará com o cheiro. E as colocarão pra lavar. Sabão em pó, água, detergente, álcool, fogo,
fim.

1 SOLTEOVERBO:
ao menos te restarão as tuas palavras ,
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