CONTEÚDO SÓLIDO

O estado sólido é um estado da matéria, cujas características são ter volume e forma definidos (isto é, a matéria resiste à deformação). Dentro de um sólido, os átomos ou as moléculas estão relativamente próximos, ou "rígidos". Mas isto não evita que o sólido se deforme ou comprima. Na fase sólida da matéria, os átomos têm uma ordenação espacial fixa, mas uma vez que toda a matéria tem alguma energia cinética, até os átomos do sólido mais rígido movem-se ligeiramente, num movimento "invisível".

você sabe que é seu...

quantas vezes
quantas horas
te esperei
pra falar
pra chorar
pra contar
que amei
e senti
e perdi
e parti

mas você
me fez ver
me fez sorrir
e brincou
e amou
e sorriu
não sofreu
não partiu
não doeu

e hoje escrevo
a você
meu querer
é te ter
no coração
bem guardado
como tesouro
secreto, escondido
protegido
amigo
querido
amado
pra sempre

é fábula

Vou contar uma história. Revelar um segredo. Guarde em secreto. Quando eu era pequena, acho que aos doze anos, eu me apaixonei. Não me pergunte nomes, não importa o objeto. Eu era tão pequena, recusava usar sutiãs, também não precisava deles, como até hoje não preciso. Eu me apaixonei, não sei porque, eu o achava lindo, o cara mais lindo da escola, ele era uns dois anos mais velho que eu, para mim ele era um homem, não sabia eu que era só um menino, mirrado e mimado. Lembro-me que escrevi-lhe uma carta, não entreguei, mas escrevi. Eu era uma garota muito tímida, mas certa vez, resolvi dizer a ele o que sentia, quão boba era, mas havia em mim uma certa inocência que hoje sinto falta. Pedi uma de minhas amigas que dissesse, porque me faltava coragem de encarar as pessoas. Essa não é uma daquelas histórias tipo Betty a feia, mesmo porque continuo sendo a Betty, versão feia. Eu nunca vou esquecer aquela cena. Quando saíamos da escola, e todos os garotos riam de mim e também daquele que fez sumir de mim o que me restava de inocência. Se eu era feia demais pra ele? Nunca vou saber. O que sei é que aquele dia foi um grande marco pra mim. Desde então, não vi mais os homens como príncipes, mesmo porque eu sabia que nunca seria uma cinderela, nem ao menos gata borralheira eu seria. Aprendi naquele instante em que me lançaram olhares e sorrisos, nada carinhosos, que nem tudo seria como nas histórias que meu pai me contava para dormir. Às duras penas, aprendi que não se deve se entregar ao desconhecido, aprendi a olhar para o caminho antes de pisá-lo. Me sentia tão boba, que decidi-me nunca mais ser tudo aquilo.
Tão pequena, deixei de acreditar no amor. Como para mim ele não existia comecei a criar. Criava sentimentos que nunca houveram, e isso machucou a muitos. Dizia que amava-os sabendo eu que não havia amor algum. E assim prossegui, lançando veneno, espalhando dor. Ora, fria, ora falsa. Imunda, mentira. Hoje, digo: nunca amei. Porque eu mentia que amava? Para conquistar? Talvez. Provar que aquele 'não' que recebi aos doze não era real pra mim, eu não suportava acreditar que foi real. Por isso criei durante muitos anos. Fingi amor. Fingi amar. Eu despertava o amor daqueles que eu nunca amaria. Eu não tinha medo. Pra mim era um jogo. Como um jogo de xadrez eu queria proteger o rei, não sabia eu que ele vivia dentro da minha barriga. No fundo as pessoas querem ouvir que são amadas, e eu dizia isso a elas. O grande dilema era que eu mentia, e me cansava, e as deixava. Quando eu as conquistava, descartava. E foi assim, por muito.
Nunca imaginei que encontraria o amor. Nunca imaginei chorar por alguém. Isso era tão bobo e ridículo pra mim. Afinal, eu era racional, e nada me abalava. Eu não amava. Amor era para os fracos. Eu nunca tive amantes, tive vítimas.
Hoje, quebrada. Cansada, de mim. Em prantos, numa madrugada qualquer, eu choro, eu penso, eu amo, e mais uma vez não sou amada. Quando o vi toda minha racionalidade se desfez. Me senti boba outra vez. Desde então ele me ocupa em mim grande espaço da mente, do coração. Quando o conheci, voltei a sonhar com príncipes e princesas. Na verdade, não o conheci, o criei, ele não faz parte da minha realidade, é fábula. As fábulas nunca foram tão reais pra mim. Eu tinha que acreditar nelas, eram minha única esperança. Minha fada madrinha virá? Não sei. Já se passou da meia noite. O encanto se acabou. Me resta ainda esperança, me resta ainda amor.

nada



eu não sei desenhar o vazio
eu não sei expressar essa imensidão do nada
eu não sei descrever
eu não sei cantar
não existem acordes que possam representá-lo
não existem palavras que possam defini-lo
e não existe nada
e o nada que é imenso não existe
considerando que é nada
e que não existe

A gente ama


a gente ama
sem nem querer
sem nem saber
sem ter porque
sem querer ser
sem querer ter
sem ter motivo
sem ter razão
querendo ou não
amando em vão
buscando chão
voando ou não
nessa ilusão
a gente ama

A gente tem fé

A gente não sabe quando, nem como e nem porque. A gente não tem motivo. A gente não tem vontade. A gente não tem querer. A gente quer ter, não importa. A gente é assim. E assim é a gente. A gente tem fome. A gente tem sede. A gente passa mal. A gente canta. A gente se apaixona. A gente ama. A gente tem filhos. A gente educa. A gente se decepciona. Mas não importa. A gente ama. A gente engana. A gente chora. A gente sorri. A gente morre. A gente sofre. A gente passa frio. A gente é a gente. A gente não é bixo. Mas não importa. E todas as gentes são gente. A gente sabe. A gente não sabe. A gente procura saber. A gente não sabe ler. A gente não sabe escrever. A gente não tem nem o que comer. A gente é analfabeto. A gente é doutorado. A gente não é nada. A gente não tem nada. A gente não tem porque. A gente não tem merecer. A gente não tem dinheiro. A gente não tem emprego. A gente não tem lar. A gente não tem cama. A gente ama. A gente dorme na rua. A gente não tem chão. A gente não tem pão. A gente tem filhos. Os filhos tem a gente. Mas tem filhos que não tem mães. E tem mães perderam os filhos. Tem mães que perderam o chão. A gente não tem saneamento básico. A gente não tem nem água. A gente não tem dente. A gente é inocente. A gente é vitima. A gente é culpado. A gente é réu. Mas a gente não conhece a lei. A gente é culpado, sem que antes transite em julgado. A gente roubou. A gente matou. A gente morreu. A gente não tem lei. A gente não pisou o tribunal. Mas nos pisaram como pisam um animal. A gente quer. A gente não quer. Não importa. A gente não tem. A gente não escolhe. A gente não vive. A gente sobrevive. A gente se queima. A gente se molha. Mas a gente não sabe. A gente é a gente. A gente sofre. A gente apanha. A gente vive. A gente morre. Mas não importa. A gente tem fé.

Não me olhe! Já disse!

E esses olhos que querem me comer? Tantos panos? Não importa. Me veem como se estivesse nua, num palco, dançando de forma sensual. Mas eu estou fazendo compras. Não importa. Me veem assim. Sempre assim. Um pedaço de carne. Um pedaço de pão. E me comem com os olhos famintos, nojentos, imundos. A forma como você me olha: me incomoda. A forma como você me toca: me incomoda. A forma como você me cumprimenta: me incomoda. Odeio quando ao invés de beijar o meu rosto, você beija o meu pescoço. Odeio quando você passa a mão na minha cintura. Odeio quando me olha dessa forma. Homens nem sempre precisam ser garanhões e as mulheres nem sempre precisam ser objetos sexuais. Solte minha mão, com você eu não irei a lugar nenhum. Você não é meu marido, não é nada, nem quero nada. Que seja nada. Só me respeite. Não me encare, isso me enoja. Não me toque, já disse! Esses olhos são como canhões, voltados para mim. Esse seu olhar bandido que quer me roubar a dignidade, a honra, a vida.
Você ainda ousa dizer que isso é amor. Se é amor eu não quero, nunca quis, nem pretendo. Amor não se porta com indecência. Essa sua malícia assassina e desonra. Esse seu olhar leviano, impuro, indecente. Se eu virei lésbica? Não! Só não te pertence. Então, não toque, não desonre, não defraude. Porque não lhe pertence!
E não hão de tirá-la de mim. Ela? Sim. Querem me tomar a qualquer custo. Não vendo. Nunca estipulei um preço. Nunca me permiti. Mas ainda assim a querem. Não negocio. E não! Não há preço que pague. Por isso não olhe, nem queira. Não será de ninguém, nem minha é. A honra.